Quando me apercebo do autismo – #TalesMdDesabafos

Uma hora vem a felicidade porque o diagnóstico reforça aquilo que já se desconfiava. Outra, vem o desânimo e a depressão, porque se sabe que esse diagnóstico não se encerra em soluções, mas, sim, acarreta mais problemas que é lidar com profissionais babacas (saúde, educação etc.) e pessoas ignorantes.

Eu felizmente seria um autista privilegiado. Devido ao hiperfoco que tive em programação – vários autistas têm, na real – e assuntos relativos à minha área desde criança, foi essa característica associada ao autismo que me permitiu fazer dois concursos e, de primeira, passar nos dois – enquanto pessoas conhecidas estudavam MUITO MAIS do que eu e sequer foram classificadas.

Mas o prejuízo mora no fato que quase toda semana quero me matar por não conseguir o mínimo que outras pessoas conseguem: Ter uma vida social, seja online ou offline.

Quando se fala sobre “não ter amigos próximos”, os trouxas não autistas acham que se trata de “amizade leal” ou “não ter amigos falsos”…

A gente tá falando de algo tão básico, mas TÃO PUTAQUEPARIUMENTE BÁSICO, que parece que vocês nem fazem ideia do que é isso.

Não é amigo de contar com ele pra tudo. É amigo comum, mesmo. É aquele amigo que sai pra um rolê; que chama pra jogar; é aquele amigo na universidade que sempre cola junto nas tarefas e não te deixa comendo o pão que o diabo amassou sozinho.

É aquele amigo que não é amizade colorida, mas garante muitos benefícios: indicações de emprego; ir junto ao shopping; ajuda em conduções como viagens; que chama pra curtir o cinema ou parque; que de vez em quando dá uma mão pra fazer certas tarefas de negócio ou de casa.

Eu vejo que mesmo as pessoas que dizem serem “excluídas”, tem essas amizades. Mesmo as pessoas que falam que não tem amigos, tem essas amizades.

Ou é aquele amigo que conhece a vida de todo mundo por ser da fofoca e você pode contar com a opinião dele antes de estabelecer vínculo com qqrs pessoas, porque esse amigo vai dizer: – olha, Fulano não é flor que se cheire, não. Não dê corda ou então ele vai te usar

Mas o normie não valoriza esse tipo de amizade. Sinceramente não sei o que é amizade pra um normie. Sei que eu queria ser um normie e reclamar dos meus amigos por serem falsos.

Eu tive sim um amigo que considero oportunista (mas ainda assim, um “amigo”) que ainda vinha aqui na minha casa só pra se divertir com minhas coisas – eu tenho TV 4K e notebook gamer, afinal.

Durante uma conversa, ele desabafou que se sentia muito burro por não conseguir desempenhar bem nas aulas. Eu fiquei olhando pra ele e, admirando todas as características “normies” dele, eu disse:

O André [isto é um pseudônimo] conseguiu a proeza de ficar facinho com um rapaz que tava no mesmo apartamento do namorado dele, na frente do namorado dele. Ele conseguiu a proeza de TRAIR o namorado dele na primeira oportunidade. Sim, André foi um filho da puta e merece todo e qualquer pé na bunda, mas NÃO SE PODE NEGAR que André consegue conquistar qualquer cara que ele quiser – André, pra ser sincero, é bem feinho kkk mas é gostoso.

… André, você pode até ser burro em várias coisas que eu sou inteligente, por exemplo. Mas você tem uma inteligência mecânica, executiva e social que EU preferia ser burro em abstração e intelecto, ser um pobre fodido e ter TUDO isso, porque eu sei que eu viveria com menor grau de depressão, com menos vontade de tirar minha própria vida cada vez que alguém deixa de falar comigo porque já não me suporta.

Uma coisa que eu diria hoje pra André só para motivar ele, pois afinal ele é meio depressivo – creio que se deva aos NÃO que as empresas dão a ele –, é isso aí em cima.

Porque enquanto mesmo com minha prima me ensinando a andar de moto, eu até hoje não consigo andar, o André aprendeu facinho e já tem uma moto por esse motivo.

E André tem amigas, tem uma saudável vida social mesmo sendo tímido/introvertido.

A diferença fundamental de um TEA pra uma pessoa tímida ou introvertida, é que estes últimos tem amigos (offline ou remotos: pessoas com quem eles jogam, assistem, colaboram em hobbies, que fazem as coisas juntos) e permanecem com essas amizades, sejam elas falsas ou leais, por décadas.

by tales